O conto de hoje...



Adoro escrever histórias para crianças. Gosto da liberdade criativa do fantástico e da escrita simples e sem artefactos.
A que se segue não é a minha primeira, nem tem muito de fantástico... mas tem um fundo muito real. As personagens existem e influenciaram-me... a forma mais simples que arranjei para me desprender foi simplificando-as para aquilo que hoje para mim são: personagens de uma história.
Será que conseguimos com sucesso pegar no nosso dia-a-dia e transformá-lo numa história infantil? Está aqui uma tentativa.

O menino sozinho era um menino que por não ter ninguém à sua volta, pensava demais.
E por pensar demais, tinha sempre muitas perguntas a fazer. Quando ele fechava os olhos com muita força, e apertava os lábios até doerem, ouvia a sua consciência, e era com ela que ele falava…
- “Consciência, o que são as estrelas do céu?” – perguntou ele um dia…
- “São pontinhos, menino sozinho. São pontinhos que estão muito longe, lá no céu…”
-“ E as estrelas cadentes, o que são?”
- “As estrelas cadentes são os pontinhos mais brincalhões, sempre a correr de um lado para o outro…”
-“ Consciência, porque é que a Lua me segue à noite? Porque é que vem atrás de mim quando vou para casa?”
- “Para ver se chegas bem. E se arranjas amigos. Quando arranjares, ela vai conseguir dormir descansada…”
O menino sozinho pensava sobre tudo. Sobre a água, sobre a terra, sobre a respiração, sobre os sabores. Pensava também em como seria a sua vida se tivesse um amigo. Será que ele ia gostar dele? Ele nunca tinha tido um amigo… “como é que se brinca?” – pensava ele com medo. “E será que posso confiar nas pessoas? Será que se elas disserem que gostam de mim, gostam mesmo?”. “Como é que faço para ter amigos, mas nunca ficar triste com eles? Sim, porque se for para ficar triste, prefiro não ter.”
E assim se passava mais um dia na vida do menino sozinho: Acordava, tomava banho, comia e ia para a escola. Na sala de aula, sentava-se sozinho numa carteira para duas pessoas. Enquanto ouvia a professora, distraía-se a olhar para a janela. Olhava para a baía que se via ao longe e pensava. Sabia exactamente a que horas é que saíam todos os barcos, e sabia para onde iam. Via lá em baixo as pessoas e as crianças a brincarem. Via ao longe quando os outros sorriam, mas não era capaz de ir lá abaixo pedir para também brincar. Ficava de novo sério, e voltava a pensar.
-“Consciência?”
-“Sim, menino sozinho…?”
-“Vou ter amigos algum dia?”
-“Se quiseres, vais.”
-“E como faço para não me magoarem? Tenho medo de ficar triste com as pessoas…”
-“A amizade e o amor são isso mesmo… São arriscar. Ás vezes ganhas, às vezes perdes. E em qualquer um dos lados, ganhas sempre alguma coisa. Nem que seja cresceres mais um bocadinho”.
O menino sozinho ficou com este pensamento na cabeça, e foi para casa ter com a mãe.
 A mãe do menino sozinho estava sempre preocupada com ele, porque ele não tinha amigos, e porque ele estava sempre a pensar no porquê das coisas.
À hora do lanche, o menino sozinho sentou-se à mesa e a mãe trouxe-lhe uma fatia de bolo. Sentou-se à frente dele a vê-lo comer e perguntou:
-“Em que pensas tu hoje?”
-“Em ter amigos… em como é que isso se faz.”
-“E…?”
-“E tenho medo. Tenho medo que me façam mal. Então, estou a decidir se me deixo ou se não me deixo ter amigos. Porque se me deixar, e eles me fizerem mal, vou ficar triste. E se ficar triste… não quero ficar triste.”
-“Quando constróis uma amizade, essa deve ser a última coisa em que pensas. Tens de pensar sempre que vai ser divertido, e que vais brincar, e correr, e rir até doer a barriga.”
-“A barriga dói quando se ri?”
-“Quando tens muita vontade, dói. Mas é uma dor boa.”
O menino sozinho apercebeu-se que não sabia o que era rir. E começou a pensar nisso.
-“Tu tens um sorriso tão bonito, filho… Porque é que não o mostras?”
-“Porque tenho medo que gozem comigo…”
-“Que disparate. As pessoas não querem saber como é o teu sorriso, e como é a forma como te ris. Não te podes importar com isso. Se tens vontade, ri.”
O menino sozinho ouviu bem lá no fundo a sua consciência. Ela estava a concordar com tudo o que a mamã dizia.
-“A consciência concorda contigo"- disse ele.
-“E o que mais é que te diz a tua consciência?”
O menino sozinho fechou os olhos com força e apertou os lábios. O som da consciência começou a ficar mais claro. Então, ele olhou para a mãe, e começou a falar. Falou durante horas e horas e horas. Falou sobre as pessoas na rua, falou sobre as pedras da calçada, que são sempre desalinhadas, falou sobre as pêras que têm uma textura diferente da das maçãs. Falou sobre os seus carrinhos e sobre os seus aviões. Falou sobre a bola de futebol que tinha no canto do quarto, em como ele era bom a dar toques, mas que estava farto de jogar sozinho contra a parede. 
Contou-lhe que não queria ser o menino sozinho para sempre, e que tinha de aprender a deixar-se ter amigos. Falou durante tanto tempo, que a mamã começou a deixar-se dormir. Ela era tão bonita quando dormia descansada. O menino sozinho levantou-se, pegou-lhe na mão, e guiou-a para a cama. Quando a tapou, estava decidido que queria encontrar um amigo. Mas que não ia procurar.
Então, começou a ouvir barulhos lá fora na rua. Uma corrida desalinhada que parecia acontecer de um lado para o outro. Intrigado, foi até à janela. Lá fora, uma menina estava a correr. Quando chegava a uma das pontas da estrada, virava-se para trás, dava balanço com o braço e voltava a correr para o outro lado.
-“Porque é que ela está a correr sem parar? Será que está a tentar ser muito rápida?” – pensou o menino sozinho intrigado. Ele continuou a olhar para ela a correr, e começou a contar os segundos que ela demorava a chegar de um lado ao outro. Ele gostava de pensar sobre tudo. Os ténis dela eram castanhos e rosa, e ela tinha o cabelo loiro. “Ela deve calçar um 27. Eu sou 30…” “será que eu corro mais rápido que ela?”, “Será que ela é amiga?”… “Será que é ela, quem vai ser a minha primeira amiga?”.
-“Vai ter com ela…” – disse a consciência.
-“Não vou… tenho medo. Ela é tão bonita.”
-“Vai já ter com ela!”
-“Não vou… ela não vai gostar de mim, e vai gozar comigo…”
O menino sozinho continuou a olhar para a menina a correr. De repente, ela tropeçou, e cambaleou uns dez passos para a frente. O menino sozinho assustou-se, e ficou muito atento a ver o que acontecia. Do nada, a menina começou a rir do que lhe tinha acontecido. As gargalhadas dela eram tão bonitas… tão bonitas que… sem dar por isso, também o menino sozinho começou a rir do que tinha acontecido.
Então aquilo é que era rir com vontade. A menina ouviu-o da janela, e começou a rir com ele.  Ele alinhou. A barriga começou a doer. Era tão bom rir, sorrir e dar gargalhadas bem fortes. O menino sozinho agarrou-se à barriga e começou a achar que ia desmaiar.
Então, a menina fez-lhe sinal para que fosse ter com ele. Ele nem hesitou. Calçou os ténis de corrida e desceu até ao pé dela.
-“Olá, como te chamas?” – perguntou o menino sozinho.
-“Eu sou a Valentina… queres brincar comigo?”
-“Ensinas-me?”
-“Se me disseres o teu nome…”
-“Eu sou o José.”
A partir desse dia, o menino, nunca mais precisou dos conselhos da consciência. 
E nessa mesma noite, a Lua descansou e não apareceu, porque o menino sozinho, já não estava sozinho.



7 comentários:

  1. Adorei, adorei, adorei!

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  2. Olá!! Hoje na sala de aula do 3ºB na Escola do Zarco em Algés, foi lida esta linda história e os nossos alunos quiseram deixar alguns comentários :

    Entre muitos ,gostei muito! Adorei ! e, a história é muito gira.

    O aluno Guilherme pede para que escrevas muitas mais, o Nicolau gostou tanto que fica à espera que faças mais histórias para ele conhecer. A Rafaela diz para continuares a escrever e o Francisco que continues com o bom trabalho, o Tiago diz que a história do menino sozinho é um bom trabalho e que o fez pensar na sua vida na escola. Alguns acharam graça por a autora da história ser amiga da professora. Todos eles gostaram muito e estão à espera de mais histórias da Ana Luísa para serem lindas na sala de aula... De todos nós um muito Obrigada e muitos beijinhos

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    1. Vera, emocionei-me... fico tão feliz de saber que leste a minha história na tua escola.
      É uma história muito real para mim, e que tentei descomplicar, transformando-a num conto para os mais pequeninos.

      Diz aos teus meninos que deste lado, mais histórias terão! Aconselho a do "Pedro e os sonhos que cheiram a bolos", cujo último capítulo me falta publicar... ou a "Dás-me uma estrela"... que é de dois irmãos... mais concretamente, eu e o meu manino.

      muitos beijinhos com carinho*

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  3. Muito doce. Li, fez-me sonhar e sim, gostei!

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