Sonho de uma noite de verão


Hoje acordei com uma sensação estranha… em sonhos, andei de mãos dadas comigo mesma.
Uma versão de mim mais pequena que eu. Mas em tudo, toda eu. Mãos, cabelo, proporções pequenas e feições de infância. Era eu, de mãos dadas com um eu de cinco anos.
Lembro-me de olhar para o lado com carinho e de a sentir aos pulos enquanto caminhava. O doce cantarolar de uma canção que não me sai da cabeça fez-me voar para os tempos em que o meu pai me cantava para adormecer.
Era tão bom voltar a estes dias. Lembro-me dos meus desenhos na parede, das estantes com brinquedos e da luz da casa de banho que ficava sempre acesa por causa do meu medo do escuro. A casa foi-se, o medo mantém-se.
E enquanto caminho de mãos dadas com este meu eu mais pequeno, subitamente ele parece-me sábio e maduro.
“Não tenhas mais medo”, diz-me ela… “o bicho papão está em ti… vou levar-te a revisitar o que já no passado te fez feliz, e com estas re-descobertas memórias vais ver que a vida é curta para a viveres em ansiedade.”
Aceno com a cabeça e entro num turbilhão de ideias.
De repente estou na casa da minha tia. Vejo tudo ao longe enquanto o meu eu mais pequeno actua à minha frente como num teatro. O meu pai, vinte anos mais novo, está a deixar-me ali para ir ter com a minha mãe. O meu irmão está para nascer! Sinto crescer em mim, em nós, a excitação de termos um bebé em casa!
Tudo fica negro.
Agora estou no hospital. “O meu menino!” diz o meu eu mais pequeno enquanto corre para o meu irmão. Lentamente, ele abre os olhos e eu descubro que agora há mais um igual a mim. A mesma essência, o mesmo sangue, a mesma pele.
Rodopio sem parar e estou com o meu avô no centro de lisboa. Corro atrás dos pombos… rodopio, e estou em casa dele, a dormir na sala. Vejo a minha avó a descer as escadas… Tão bonita que ela está. Do alto, vejo que o meu eu mais pequeno, aconchegado no sofa, espreita todos os movimentos dela, e finge que dorme. Ela aproxima-se e deixa um chocolate na minha almofada.
Quando ela fecha a porta, tudo à minha volta derrete como uma vela de cera a queimar… estou com os meus pais… estamos a rir de uns desenhos que o meu pai faz na toalha de papel do restaurante… olho para o lado, e estou com amigos à volta de uma fogueira… soam guitarras, oiço gargalhadas, canto até me doerem as cordas vocais. Estou rouca, mas feliz. Sinto um puxão na mão… é o meu eu mais pequeno.
- “Queres mais?”
- “Por hoje não… vamos guardar o resto para amanhã”
- “Aqui à mesma hora?”
- “Combinado…”


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