Dia de festejos e dia de saudades...

Hoje a minha mãe faz 50 anos. E que 50 anos mais maravilhosos. 
Sou uma sortuda, por ter uma mãe tão jovem, activa, ambiciosa, bonita e.......................... motard!!!!!!





Muito do que sou e muito do que é a minha forma de estar no mundo é fruto do exemplo que tive destes dois acima. Livres, viajados, namorados, amantes. Estão neste momento de partida para Praga para um fim-de-semana romântico e espero que se divirtam muito.
Para o meu pai, este é também um dia confuso... e não consigo deixar de achar que é bastante injusto ao mesmo tempo. Ninguém escolhe a data para partir, e às vezes, as coincidências acontecem, e temos de continuar a viver com elas, chorando e relembrando os mortos, e celebrando os vivos.
Faz hoje também um ano que faleceu a minha avó Luisa... minha melhor amiga e confidente. Tiro o chapéu ao meu pai, que embora triste pela perda da mãe, saiba celebrar o aniversário da minha. Eu própria já tinha pensado em trazê-la para Lisboa este fim-de-semana, porque em Faro, o clima é certamente de muito silêncio e melancolia.
Tiro-te o chapéu, meu pai, por continuares a relembrar-me do porquê de sermos tão parecidos, de veres beleza em tanta coisa, e por gostares de fazer os outros felizes.

A minha segunda parte deste email é mesmo dedicado à minha avó Lu, ou avó Uica. Tenho tantas saudades dela, que por vezes ainda sonho com a sua presença. Tinha 67 anos (não era velha nenhuma), e nunca foi verdadeiramente feliz. Desde que me lembro que a minha avó Luisa tinha uma grande depressão... remoía nos problemas e tristezas do passado, sempre à procura da verdadeira felicidade, e sempre sem perceber que a felicidade não é verdadeiramente palpável... que a felicidade está no caminho que construímos juntos, rodeados de amor. Amor esse, que ela não conseguia ver que tinha de todos e tão incondicional. 
Pensei mil e uma vezes que se tivesse forma de saber onde mora a felicidade, a levaria lá. Tenho na memória tantos episódios maravilhosos que passámos só as duas. Lembro-me de lhe falar do meu primeiro namorado, e de lhe limpar as lágrimas ainda eu muito, muito jovem.
Lembro-me de a ver zangada com o meu pai durante uns tempos sem razão aparente. Achava que ele tinha deixado de gostar dela. "Absurdo"! - dizíamos todos... mas ela continuava a achar que o seu filho mais velho já não a amava. Tive de fazer algo de que não me orgulho especialmente, mas de que também não me arrependo nem um bocadinho: sempre soube onde o meu pai guardava o seu diário de adolescente... e sim, li-o todo. Um dia, quando ele estava fora a trabalhar, fui ter com a avó Luisa, e li-lhe aquela que para mim era a passagem mais bonita daquele diário... e falava somente nela. No quanto ele achava que ela era a mulher mais bonita do mundo, de como ele a amava incondicionalmente, e de como isso nunca haveria de mudar. Acabámos a tarde a chorar juntas, e ela, dentro da cabeça dela, fez as pazes com ele.
Tenho pena de nunca ter realmente sabido a história da sua vida... ela dizia-me tantas vezes: "um dia, saberás a história da minha vida". Como achamos sempre que o "um dia" há de chegar, acabamos por não lhe dar tanta importância... como é que eu haveria de adivinhar que ela morreria do nada aos 67 anos?! 
Durante semanas após a sua morte, sonhei sempre com ela, a preparar-se para me contar a história da sua vida... mas ora acordava, ora não a conseguia ouvir, ora não saía som da sua boca. É daquelas coisas que me arrependo todos os dias. Gostava que ela tivesse percebido que podia ser feliz, e que o sofrer do passado a devia tornar mais forte em vez de mais fraca. Pode ser que seja trauma meu, e tenho muitas vezes amigos meus a gozar comigo quando lhes digo que estou a treinar para um dia ser a melhor avó do mundo. O facto, é que um dia (espero eu), serei eu a avó Luisa... e quero continuar a aproveitar cada bocado desta minha passagem na terra. Sem ter pena do que passou, e sempre com vontade de celebrar cada nova idade. Quero ver as minhas mãos a enrugar de velhice, e quero que a minha família tenha prazer em vir passar os Domingos em minha casa. Quero que os meus netos sejam meus confidentes, e quero dar-lhes aquilo que a minha avó Luisa dava em pensamento e não em acções.
Tatuei o seu nome na minha pele, e em breve acrescentarei mais um bocado de saudade. 
Na altura, a melhor forma de lhe prestar homenagem caiu-me do céu: Eu ainda não trabalhava na Nebula, e fui convidada a fazer parte da equipa para a competição de curtas metragens em 48 horas. Fiquei radiante, e gosto de acreditar, que em parte, este foi um ponto essencial que originou o convite deles para entrar mesmo na empresa uns meses mais tarde.
Tivemos elementos essenciais que só nos foram dados no dia da competição: Uma das personagens tinha de se chamar Carla, tinha de haver uma professora, ou simplesmente alguém a ensinar algo. O objecto obrigatório era uma colher de pau, a frase obrigatória era "mantém a tua palavra", ou "keep your word", e por fim, em sorteio, saiu-nos o género "Fantasia".
Nada poderia ter sido mais perfeito. O guião calhou-me a mim, e tentando não parecer demasiado egocêntrica com os sentimentos de raiva que me invadiam, escrevi sobre mim e a minha avó, sem deixar transparecer que a história era tão nossa como nunca antes tinha havido algo tão meu e dela.
O nosso director de fotografia, o Nuno, tinha uma avó que tinha vivido na África do Sul, e que portanto, sabia falar inglês. Sem pensar duas vezes, perguntei-lhe se ela estaria disponível. Ele disse que sim, e quando eu a vi chegar, tive vontade de chorar. Era tão parecida com a minha avó.
E assim começou a aventura (muito, muito cansativa) do Recipe of Life...

















Vimos alguns vídeos que nos pudessem dar inspiração antes de começar a escrever o guião. E foi num instante que chegámos à história...
Uma avó, iria ensinar à neta uma receita secreta: a receita para a felicidade... aquela que a minha avó nunca conseguiu encontrar.
A neta chamar-se-ia "Carla", e já estávamos com a questão dos "ensinamentos" também safos.
No objecto obrigatório (colher de pau), entra mais uma vez o fantástico e entram os doces de que tanto gosto: A avó, ia ensinar à neta que o caminho para a felicidade não é algo fácil de encontrar, assim como o destino final. E que pelo caminho, existem muitos medos e obstáculos a percorrer. A neta teria de encontrar a receita para a felicidade durante o mesmo tempo que a avó demorasse a fazer o seu bolo de chocolate (o meu preferido, e com muita sorte, oferecido pela Landeau para a nossa curta, assim como o espaço, que nos foi cedido gentilmente pela proprietária para fazer de cozinha da avó).
A neta iria dar a um espaço mágico, aquele que eu nunca consegui dar à minha avó, e que aqui, me estava ela a dar a mim, e nele, leria a receita para a vida, e receita para atingir a felicidade.
No final, a neta apareceria mesmo a tempo, e com um segredo maravilhoso na sua vida, o qual ela teria de manter secreto.

Tudo isto parece muito bem assim escrito, não é? O facto foi que não sabíamos onde nos estávamos a meter quando acabei de escrever a história com o meu colega João. Isto é algo que não se faz em apenas dois dias, já com o tempo perdido para a escrita de guião, com tempo para caracterizar, preparar espaços, iluminação, captações, edição, legendagem (decidimos fazem em inglês, todo em forma de poema... ufa!!), e sonoplastia, que mais uma vez, contou com a parceira do meu Miguel, que, coitado, teve apenas duas horas para dar o seu melhor (ele bufava por todos os lados que não tinha tempo para nada, e tinha toda a razão...). 
Era impossível ter um vídeo perfeito com tão pouco tempo... e o que tenho para vos mostrar abaixo, ainda nos valeu três prémios, dos quais nos orgulhamos muito... porque a equipa juntou-se e não só entrou no meu devaneio "histérico-depressivo-feliz", como conseguiu fazer tudo a tempo da entrega, sem uma única zanga ou zaragata. Preparem-se, porque sim, tem muitas falhas de imagem, o som não está perfeito, o guião não é dito com precisão... mas foi feito com muito, muito amor. Ah! E chamo a atenção para o genérico final em 3D, totalmente Nebulástico!


Sempre que vejo este vídeo, tenho vontade de pedir para o re-editar todo... mas no fundo, o que está feito, está feito. E perderia o efeito de 48 horas, que foi o que originou tudo. Sim, poderia ficar melhor, mas sinto que está sincero, e honesto. Um trabalho de equipa gigante, como eu ainda não tinha visto antes.
Fico por aqui por hoje, e espero que onde quer que ela esteja, a minha avó Luisa, tenha orgulho em mim. As saudades cortam-me aos pedaços, e dava tudo para a ter comigo.
Feliz Sexta-feira... boa viagem, mamy!*

PLIM; PLAM; PLUM*

Recipe of Life Credits:
André Gaspar and Guilherme Afonso - Directors
João Marcos Marchante - Producer
Vera Leiria - Assistant Producer
Ana Luisa Bairos - Script
Eva Barros - "Carla Bengala"
José Tayler - "Margarida"
André Santos - Director of Photography
Brown Caetano - Camera Operator
Duarte Domingos - Camera Operator
André Figueiredo - 3D
Alexandre Pereira - Sound
Nuno Oliveira - Set Photography
Rute Tibúrcio - Make-up
Original Soundtrack by: Cochaise

2 comentários:

  1. Olá Luísa!
    A "visitor-blogger-spy" :) decidiu comentar pela primeira vez... que posso eu dizer destas tuas palavras? "Colei" da primeira à última... confesso que não sou de ler posts longos e o mesmo se deve passar com muita gente, mas simplesmente "colei". As tuas palavras e a forma como contaste tudo... tenho apenas de agradecer-te a partilha de algo tão íntimo e pessoal! Parabéns à Mãe, parabéns pelas palavras e parabéns pelo excelente vídeo!
    Beijinhos Gina (ou Cherryellow) :)

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    1. Olá Gina! Bom dia!
      Tens toda a razão... estiquei-me com o post, e também não é de mim fazer estes testamentos. Mas enfim, deixei-me levar nas recordações. Ainda bem que gostaste, fico feliz que isto tenha feito sentido. Às vezes escrevo sem pensar, e pode mesmo ficar muito confuso!

      A minha mãe é um espectáculo! Em breve poderás também ver o diário de viagens de mota dela e do meu pai, num blogue que está ainda em construção... how cool is that? Desde que me lembro, que os meus pais viajam de mota pela Europa... o blogue (feito pelo meu pai) está a ficar tão giro! Quando sair, faço referência! ;)

      beijinhos!!!! (e obrigada pelas palavras*)
      Lu*

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