A life story in tatoos... // Uma história de vida em tatuagens...

"Ok, fazes o piercing porque é o teu aniversário, mas tatuagens não, está bem? Tatuagens ficam para sempre!".
Foi o que me pediram os meus pais, estava eu a fazer 14 anos e pedi-lhes para ter um piercing no umbigo. Mesmo achando eles que eu era muito nova, como recompensa por ser sempre boa aluna, assinaram a autorização para menores e lá fui eu. Durante anos tive medo de tatuagens, e convenci-me durante muitos que nunca iria fazer uma... até estar a fazer a idade de 25.
Era de noite, estava a trabalhar e do outro lado da linha ouvi o meu pai a dizer-me "Já acabaste o trabalho por hoje?"
- "Sim pai... diz".
- "Já não tens mesmo mais nada 'pra fazer?".
- "Não pai... conta lá".
Do outro lado da linha comecei a ouvi-lo chorar. Sem sequer saber o que se passava, desatei a chorar também. Tinha acontecido alguma coisa com alguém que nos era querido, eu sabia, só podia ser. Quem? A minha mãe? O meu irmão? A minha avó Luisa?
- "A avó morreu... estamos no hospital".
Eu tinha estado a lanchar na casa dela há apenas dois dias atrás, e ela estava bem. Nada indicava que algo assim poderia acontecer. Fiquei a saber que foi mesmo do nada. Em segundos. 
Sou Luisa por causa dela, e nela sempre tive uma das melhores amigas da minha vida. Aquele ano ficou marcado como o ano mais difícil de sempre até hoje. Não foi só o pesar de ter perdido a minha estrelinha, piscológicamente, tive o meu primeiro contacto adulto com a morte, e com a facilidade com que acontece. Cresci 10 anos em segundos, e marquei-a em mim.
Metade do coração tem "25", a segunda metade, é "Luisa".

"Ok, you'll make the piercing just because it's your birthday, but tattoos you can't, okay? Tattoos are forever."
That's what my parents asked me, I was 14 and wanted my belly button pierced. Even seeing me as very young, as a reward for always being a good student, they signed authorization for minors and off I went. For years I was afraid of tattoos, and I was convinced for many that I would never make one… until I turned 25.
It was night, and I was working late. On the other side of the line I heard my father asking me "Did you finish work for the day?"
- "Yes dad, tell me...".
- "I don't have anything else to do?".
- "No daddy... do you need anything?"
Across the line I began to hear him cry. Without even knowing what was happening, I began to cry too. Something had happened to someone who was dear to us, I knew it. Who? My mother? My brother? My grandmother Luisa?
- "Grandma died ... we are at the hospital."
I had been having a snack at her house just two days ago, and she was just fine. Nothing indicated that something like this could happen. But it did. In seconds.
I'm Luisa because of her, and she had always been one of my best friends in life. That year got marked by the toughest year ever to date. It was not only the grief of losing my star, psychologically, I had my first contact with death as an adult, and the ease in which it happens. I grew up 10 years in seconds, and so I carved it on me.
Half of the heart means "25", the second half is "Luisa".


Os meses que se seguiram foram difíceis... muito difíceis. Decidi que me ligaria ao meu avô com mais afinco, e todas as semanas jantávamos juntos. Foi complicado, sendo a única neta que ele tinha em Lisboa, vi-o semana após semana a chorar em locais públicos enquanto bebíamos um e outro copo de vinho para celebrar a linda pessoa que a minha avó tinha sido. Numa dessas noites, ele chamou-me pelo nome que só poucos conhecem... "Ana Uica". Em pequena, era-me difícil pronunciar "Ls"... então quando me apresentava, era a "Ana Uica", e claro, a avó Luisa era a avó "Uica". Em família acabou por ser algo normal, e com um lado muito carinhoso.
Nesse mesmo jantar, pedi ao meu avô que escrevesse "Ana Uica" numa folha de papel solta. E assim chegou a segunda marca, mais um bocadinho de mim, na letra dele, para sempre.

The months that followed were difficult... very difficult. I decided that I would call my grandfather more often, and that we would have dinner every week. It was hard being the only grandchild he had in Lisbon. I saw him cry week after week in public places while we drank one and another glass of wine to celebrate the beautiful person that my grandmother had been. One night, he called me by the name that only few know: "Ana Uica". When I was a kid, it was difficult for me to pronounce the  "L" letter. So I was "Ana Uica" to everyone, and of course, my grandmother Luisa was the grandmother "Uica". In the family it turned out to be something normal and very sweet.
At that same dinner, I asked my grandfather to write "Ana Uica" on a sheet of paper. And so that became my second mark, a little bit more of me, in his handwriting, forever.



A minha família é a melhor coisa que tenho no mundo. Não há palavras para descrever o apoio que recebo, o carinho, a rede de salvação. Em contrapartida, sei que lhes dou inúmeras preocupações. Ter saído de casa tão nova, ter ficado doente, ter ficado sem trabalho e em busca de auto-reconhecimento na aventura de trabalhar em algo que me faça feliz, embora sem perspectivas de riqueza de futuro.
Sou um pote de preocupações por vezes, sim... e é por ter o apoio de um pai dedicado, de uma mãe tão forte e de um irmão tão carinhoso que sou uma pessoa tão feliz e tão positiva.
Ao telefone, não dizemos "amo-te muito" ao desligar... passamos logo à etapa seguinte: "eu mais, pai"... "Não, filha, eu é que mais!"... "eu mais que tu, mãe"... "Não, eu mais, que eu é que sou a tua mãe!".

My family is the best thing I have in the world. There are no words to describe the support they give me, the care, the safety net. On the other hand, I know I give them numerous concerns. Having left home so young, getting sick last year, having been with no work and looking for self-recognition in the adventure of working on something that makes me happy, although with no prospects of future wealth.
I am a lot of worries sometimes, yes ... and it is because I have the support of a dedicated father, a mother as strong mine, and a caring brother that I am a person that's always so happy and positive.
On the phone, we don't say "I love you"... we immediately go to the next step: "me more, dad" ... "No, Ana, I do more!" ... "Me more than you, mom" ... "No, me more, because I am your mother." (I love you more - "eu mais" in portuguese)

 

Influenciada pelo livro "Adivinha o quanto eu gosto de ti", comecei a perguntar... "Se tu mais do que eu, então é até onde?". A resposta normalmente, é "Daqui até à Lua..."


Influenced by the book "Guess how much I love you," I began to wonder ... "If you do that more than I do, how far does it go?". The answer usually is "Up to the moon .."



E de volta... até cá abaixo...*

And back...


Love, Lu*

18 comentários:

  1. Adorei Luísa. Muita gente não compreende o mundo das tatuagens e porque temos de marcar o nosso corpo mas cada um tem a sua razão.
    São muito perfeitinhas as tuas. Estou a pensar fazer uma pequenina mas tenho medo rrrrr. *

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  2. Não tenho tatuagens e não estou a imaginar num futuro próximo. Tenho piercings (e nem isso sei como consegui dado o meu pavor de agulhas e objectos metálicos cortantes).
    Mas para mim só assim as tatuagens fazem sentido.
    As tuas fazem parte de ti como a tua história, são lindas, é lindo ler a tua história :)

    Continua a ser feliz

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  3. no jantar do "até já" disse-te ao ouvido que tinha tido pena de não ter tido tempo suficiente de te conhecer, mas que sempre me pareceste uma pessoa maravilhosa... são descrições destas que me fazem ter a certeza que te disse o correcto.
    obrigada por partilhares a pessoa que és :)
    beijos grandes
    Ana

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  4. Adorei ler as tuas palavras, há nelas muito sentimento :)
    Um beijinho

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  5. Lindo texto!
    Fiquei muito comovida pois perdi o meu querido avô também do nada, sem previsão, custa tanto!
    Ainda não tenho nenhuma mas quero muito fazer uma tatuagem, parece-me lógico que quem fica gravado no nosso coração, fique gravado na nossa pele!

    **
    Patrícia

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  6. Identifiquei-me totalmente e pelos mesmos motivos. Senti e chorei as tuas palavras.
    Grande beijo, és uma menina maravilhosa

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  7. Que lindas, Luísa! :) Eu também gostava de fazer, mas ainda não me decidi bem em relação a isso e também ainda não chegou a altura certa :) Ah e sabes uma coisa? Também tenho uma avó Luísa que adoro do fundo do coração :) É tão teimosa que queria convencer meio mundo a chamar-me Ana Luísa... Saiu-lhe uma Ana Margarida (Guigui, com carinho) e ela às vezes conta que quando me viu pela primeira vez, aceitou com ternura, e não trocava a sua "flor" por nada :) Um beijinho grande

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  8. Que lindo! Adorei este post :) Muito criativo e emocionante.

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  9. Adorei este post. Muito lindo mesmo.

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  10. Que texto e fotogtafias lindos! tanta saudade.. um beijinho enorme da bella Siena *

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  11. lindo! adoro a do pé.
    também tenho uma, também tem muita emoção e muita história, para mim só assim fazem sentido.

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  12. As fotos estão fantásticas e a história... a história não tem comentários de tão bem contada.
    Ainda não tive coragem de fazer uma tatoo, mas quero muito e há muito tempo. Com tantas histórias qual irei eu escolher?
    Até já

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  13. És linda Ana!! E não digo isso no sentido de beleza física.
    Vou continuar a vir sempre que queira alimentar-me de doçura, obrigada por este lugar tão lindo e repleto de coisas maravilhosas.
    Abraço doce e sereno :)

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