STYLE post: Blue... So What?

 Uma das razões pelas quais deixei o Algarve foi porque sofri de bullying durante a adolescência. Era a miúda cheia de borbulhas, extremamente magra, que andava de forma esquisita. As minhas alcunhas eram a "feia", a "Ferrero Rocher", a "Gazela", o "Flamingo", a "Maria Rapaz". Fui usada para ser gozada pela turma, como quando num dia em educação física, na fila para o salto em comprimento um colega me puxou as calças para baixo, e com elas veio também a minha roupa interior. No pânico de as puxar para cima, entre risinhos e comentários, não raciocinei a tempo que as tinha tão apertadas que tinha de desatar os atilhos das calças primeiro, e foram talvez os segundos mais horríveis da minha vida (na altura).
As coisas eventualmente melhoraram, mas perdi o contacto com praticamente todos os meus colegas de secundário, tendo ficado apenas os que valiam mesmo a pena. Os do meu grupo de atletismo, e a minha grupeta intitulada de nerd pelos "fixes".
Com a vinda para a Universidade, entrei em Faro e em Lisboa, mas ignorei a entrada no Algarve, e fugi para a capital, na tentativa de começar de novo, e de encontrar quem me visse como eu realmente era. Que não me estranhasse e que não me excluísse pela forma de vestir, pelos meus gostos pessoais, ou pela minha pele.

Em Lisboa eventualmente encontrei quem me cuidasse dos problemas de pele (dou-vos o contacto em mensagem privada se precisarem, é de facto um médico milagroso!), e decidi começar a usar aquelas coisas que no Algarve sabia que seria gozada. Embora as coisas melhorassem, não sei se pela mentalidade ou se por simplesmente ser uma cidade maior e as pessoas não quererem saber, o facto é que ainda acontecia aqui e ali.
É engraçado, por exemplo, ver as diferentes reacções que um simples baton provoca. Se uso um rosa, tudo normal. Se uso um vermelho, uau, a boca está a chamar à atenção... Se uso preto (grande tendência em Nova Iorque este ano, por exemplo!!), sou literalmente tratada como uma marginal. Eu obviamente esqueço-me de que tenho a boca preta, mas numa loja de roupa, ou num café, sou atendida em tom de desaprovação, por vezes ignorada, e já houve quem dissesse que nem consegue olhar-me nos olhos. Na semana passada comprei este azul da Lime Crime que adoro. Houve quem dissesse que gostava mas que não tinha "coragem" de utilizar (coragem, porque a verdade é que se quisermos sair da norma, a palavra é mesmo coragem), recebi comentários de quem dissesse, "Ai Ana Luisa, que horror" ou "então Ana Luisa, vais 'pó surf?". Depois, tive pessoas a rir, a apontar o dedo, a chamarem as famílias para virarem a cabeça para verem a rapariga que estava a passar de boca azul. Alguns nem se preocuparam em disfarçar. É giro analisar a sociedade, e como reagem quando algo foge do normal. É só um baton, malta. Mas não, a freak está a passar.

Quando finalmente caí em mim, decidi que nada disso tinha importância. Dentro do grupo de amigos, sei que primeiro estranha-se e depois entranha-se... mas o facto de isto acontecer deixa-me sempre incomodada. Chega de pensar duas vezes no que vamos vestir de manhã pelos comentários que vamos receber, não acham?

Com este post, não estou de todo a fazer comparações, ou a dizer que certas cidades são melhores que outras. São todas boas e todas más. Continuo a gostar muito do meu Algarve, e aprendi a perdoar. O segredo está em nós e em como nos mexemos. Está no que damos importância e no que nos influencia de forma positiva ou negativa.
Descobri alguns anos depois que não importa a cidade onde vivemos, ou o país. Importa sermos fiéis a nós próprios, porque haverá sempre um labrego a apontar o dedo, a chamar os amigos para virem ver a freak a passar. O segredo... é cagar e andar, e ser feliz.
Eu sou a Ana Luisa, tenho a pele oleosa, ancas muitos largas, mamas pequenas, celulite, e não consigo deixar os doces... ou os hidratos de carbono. Gosto de batons esquisitos, de misturar padrões e não me penteio há sensivelmente três meses. Adoro livros de fantasia, mousse de chocolate com batatas fritas e oiço hip hop. Sou uma cat lady para sempre e fico furiosa quando me dizem que os gatos são falsos. Ando de forma desengonçada, tenho estrias nos joelhos, choro em todos os casamentos que fotografo, ainda que tenha apenas conhecido os noivos nos dia. Gosto de cães, mas odeio quando me babam as mãos. Durmo de endredon o ano inteiro, e nunca me lembro de meter creme hidratante.
Love, Lu*

Fotos // Photos: Marta Dreamaker
Baton // Lipstick: No she didn't - Lime Crime
Camisa // Shirt: Kling
Saia // Skirt: Zara
Mala // Purse: Kling
Sandálias // Sandals: Zara
Anéis // Rings: Berska

One of the reasons why I left the Algarve was because I suffered from bullying during my adolescent years. I was the girl with the terrible skin, full of zits, super skinny who walked in a funny way. My nicknames were "The ugly", the "Ferrero Rocher", the "Gazelle", the "Flamingo" or the "Tom Boy".
I was used as the class clown, like one day on my sports class, on the line for long jump, someone pulled my sports pants down and my under wear came with it. Panicking to pull them back up, while everyone was laughing, I forgot that I should first untie the lace and these were probably the worst seconds of my life by then.
Things eventually got better, but I lost contact with all my classmates who meant nothing to me, leaving only my athletics pals, and the nerd friends, as we were called by the "cool ones".
When the time for college came, I ignored the fact that I was accepted in Faro, and ran away to Lisbon, (ten years ago this September), trying to find my true self, and a place where I could be just me. Somewhere where I could wear what I liked, and where I wouldn't be judged by it, by my personal tastes or by my bad skin.
In Lisbon I eventually found who could take care of my skin problems, and I decided to try to wear everything I didn't have the guts in the Algarve. Things were a bit better, I don't know if because of the mentality or just because no one really cares, but it still happened.
It's funny to see, for example, peoples reaction to just wearing lipstick. If I wear pink, no worries. If I wear red, I am calling attention... if I wear black (huge hit in New York this year), I am treated like a marginal. I obviously forget that my mouth is black, so in a store or café, people actually treat me with disapproval, and there have been people who say they can't look at me in the eye. So last week, I bought this blue from Lime Crime, which I absolutely love. There were people who said they likes it but didn't have the courage (and courage is a great word to put it. Why should I have to be courageous to wear lipstick in a modern society?!), there were people who said "Ana Luisa, thats awful" or "Hey, you gonna go surfin'?". Then I had those who laughed, pointed at me, who called their families to turn their heads to see the freak pass by. Some didn't even try to disguise the fringe and the looks.
It is so much fun to analyze how society reacts to something that just goes out of the norm. Its just lipstick, but no... the freak is passing by.
When I finally came to myself, I decided that nothing really mattered. In my group of friends, at first the reactions can be weird, but then they get used to it... but it still bothers me that judgmental reactions happen. Let's stop thinking twice about what we are going to wear in the morning just because of what people might think, right?
With this post, I am not making comparisons, or saying that some cities are better then others. All of them are good and bad. I still like my Algarve, and I learned to forgive. The secret is in us, and in the way we act. It is in giving importance to what influences us in good and bad ways.
It doesn't matter the city of country where we live. Whats important is to stay true to yourself, because there will always be a "smart fella" pointing the finger at you, calling his friends to look at you and see the freak pass by. The secret is to not give a damn, and be happy.
I am Ana Luisa, I have oily skin, large hips, small boobs and cellulite and I just can't keep away from sweets... or carbs. I love weird lipstick colors, mixing padrons and I haven't combed my hair in three months.
I love fantasy books, chocolate mousse with chips and hip hop. I am a cat lady forever and it gets me furious when people who never had cats say that they are false and not trust-wordy. I walk in a funny way, have stretch marks in my knees and cry at every wedding I take pictures of, even if I just met the couple on that day. I like dogs but hate it when they drool on my hands. I sleep with a duvet all year long and I never remember to put on moisturizer.
Love, Lu*

24 comentários:

  1. No texto só faltou 'um olhar doce', 'um sorriso contagiante' e 'um talento incrível'.
    beijinhos <3

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  2. Que grande texto Ana! Com certeza muitas meninas se identificam em quase tudo o que disseste...a adolescência pode por vezes ser cruel! Mas nem todas a conseguiram encostar para canto com um estilo e uma confiança igual à tua! " Cagar e andar" é sem dúvida o pensamento! E sabe tão bem não ser mais um entre a multidão, não sabe;)?

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  3. Ana, adorei o texto <3

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  4. E és linda, e inteligente, e és tu, e ainda bem :)

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  5. Adorei o post, "Marafada". Sempre foste uma das pessoas que mais me inspirou e sei que há muita mais gente que sente o mesmo - sempre que o teu nome surge em conversa com alguns amigos, é envolto em muito carinho, saudade e admiração. Todos te admiram por seres quem és e por não teres a mínima vergonha disso; é preciso "coragem" para usar batom azul, mas ainda é precisa mais para bater o pé e dizer "não quero saber se gostam ou não", para procurar a felicidade como fizeste (e fazes).
    Identifiquei-me muito com grande parte do texto. Obrigada por me inspirares (a mim e a muitos outros).

    Beijinhos,
    Mariana Rufino

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  6. "É só um baton malta."
    Gostei, é a "coragem" que muda o mundo :)

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  7. Interessante quando dizes isso, porque eu nem vou muito longe e ainda existem olhos a virarem quando vou à manicure e digo que quero usar verniz preto. Mas, podemos usar um verniz azul e preto não? Ou podemos usar o cabelo preto e azul não? é tão estranho. Lembro de quando começou a moda das Litas (botas com grande plataforma e salto muito alto), comprei e fui passear. Senti o mesmo que tu, pessoas a rirem e a apontar o dedo sem qualquer constrangimento, querendo deixar-me constrangida, se calhar. Mas o que visto não me define, não sou pior ou melhor do que o outro que usa camisa de gola alta ou que segue os padrões e eu não. Ainda bem minha querida que somos todos diferentes e que chatice seria se andássemos todos iguais, vestíssemos o mesmo e gostássemos das mesmas coisas.
    Acho que as pessoas, medíocres, procuram algo nos outros para "implicar" e esquecem de ver o teu melhor sorriso, esquecem de conversar contigo e verem o quanto és meiga e carinhosa, gentil e educada. Ahhh e ser "freak" é o que está a dar, os loucos de hoje serão aqueles que estarão aptos para o dia de "amanhã".
    Vamos mais é ser felizes hoje com as cores do arco-íris pintadas nos olhos ou onde nos apeteça usar e já agora, ficas lindíssima com este batom, tens classe para usá-lo.

    Adorei o post, és muito à frente hoje e já o eras naquela época, ultrapassaste o bullying sem ficar amarga, nem se tornar aquelas pessoas passadas que vivem à base de remédios, tens alicerces sólidos, amor de sobra e isso sim, é bem importante para alguém com tanta essência boa como tu.

    Beijo enorme lindona!!

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  8. Adorei ler...revejo-me em muito do que dizes, mas acima de tudo, gosto muito da tua perspetiva sobre cada momento da vida! :) Parabéns!

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  9. Vamos sempre estranhar o que é diferente. É um hábito muito portuguesinho criticar as pessoas pelo que usam e como usam (claro que há sempre exemplos de muita falta de noção, mas se a pessoa é feliz assim, teremos verdadeiramente o direito de mandar abaixo?), eu própria fiz um comentário no teu instagram a brincar com a cor do teu baton (que por acaso adoro, é linda). Não sei se seria capaz de usar, se me identifico ou se fica bem no meu tom de pele (o preto já acho mais interessante), mas gosto que uses, gosto que exista pelo menos essa opção. Nem que seja só para me fazer questionar.
    Agora que escreveste este post, se calhar chegava-me à frente e comprava um baton laranja que é a minha pancada a nível de cores diferentes (mesmo já tendo mil batons e ter dito a mim mesma que agora já chega). :P

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  10. Que texto magnífico, Ana Luísa. Revi-me imenso no que descreveste, e é tão bom sermos nós próprias, não é verdade? :) Esse teu batom azul és tu, o teu andar desengonçado és tu, as tuas ancas largas és tu, e tu és tão, tão linda! ♥

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  11. olha, só tenho uma coisa a dizer aqui: you rock!!!!!!

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  12. A sério???? Oh Ana, só podes estar a brincar! Dos últimos tempos foste uma das pessoas mais fantásticas que conheci: simpática, divertida, autoconfiante... Azul, amarelo ou roxo - o que importa não é a cor do batom, mas sim o sorriso que tens no rosto e que extravaza a alma!!!

    E sim, aqui sofre-se imenso esse complexo do "ser diferente". Hoje não é diferente. Se andaste no colégio, és uma menina de colégio (= oferecida!). Se usas umas calças rotas, é porque precisas de ar condicionado. Se tens o cabelo cor de rosa, é porque te drogas e andas em más companhias. Se tens o rabo grande - e aqui eu falo com conhecimento de causa - és um barril com pernas - para não dizer pior... Aqui, até se vestires umas meias roxas, ouves logo atrás de ti "roxo é amor frouxo!" (não... ninguém me contou. eu era as meias roxas!)
    As cidades grandes têm esssa grande capacidade de não absorver nada e de tomar tudo como normal. E um dia ainda vou viver para uma cidade grande...

    Beijinhos <3

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  13. O teu olhar na última foto diz tudo de quem tu és! Gosto de ti desde aqui até à lua!! Saudades, um grande beijinho e um mega abraço!

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  14. Gostei muito do post. Parabéns!
    Beijinhos

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  15. de certeza que neste momento algumas dessas pessoas estão a morrer de inveja. o importante é mesmo teres conseguido descobrir como seres fiel a ti mesma e seres da maneira que gostas! :)

    beijinhos.
    http://letrad.blogspot.pt/ - Another Lovely Blog!

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  16. Não te conheço (infelizmente) mas já te adoro só pelo texto :)
    Go on girl!

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  17. Este post é tão genuíno e tão pessoal. Obrigada por partilhares a tua história. Há coisas que nos acontecem na vida e que nos marcam para sempre. Há quem viva a vida marcado por coisas do passado e quem as ultrapasse e lute por ter uma vida feliz e não deixar que essas lembranças permaneçam muito tempo, tal como tu fizeste e isso é maravilhoso.

    Infelizmente aqui em Portugal julga-se imenso o aspecto das pessoas e se o que usam foge um bocadinho à norma cai o carmo e a trindade. É triste e revoltante. Acreditas que já fui gozada na rua só porque estava a usar um chapéu? No VERÃO? Ridículo. Ainda por cima era um chapéu normalíssimo...
    Mas não deixei de o usar, aliás, até comprei um de inverno. Ah, e parece que quanto mais pequena é a cidade, mais gozados somos. Falo por experiência também.

    Já te disse que adoro essa batom em ti! Não sei se em mim funcionaria o azul, mas roxo ou preto ia adorar!! Bora fazer um protesto alegre nas ruas? Sem slogans, sem berros, só um grupo de raparigas a usar batons hiper coloridos? Eheheh. :D

    www.joanofjuly.com

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  18. ADOREI! ;)
    Por isso quero partilhar contigo um bocado da minha história: Eu sou de Lisboa. Quando era pequena gozavam comigo porque tinha borbulhas e a pele oleosa. Um dia um rapaz disse: "Se não tivesses essas borbulhas, até eras gira!" Também me chamavam de "poste de electricidade ( porque era muito alta para a minha idade), de Orangotango ( esta nunca percebi porquê, não era gorda e nunca tive muitos pêlos) e diziam que me vestia mal, porque tinha um estilo próprio e era super fã da Madonna ( vestia-me muitas vezes como ela no "Borderline" ou "Holiday") Aprendi a não ligar aos comentários "parvos" e a vestir-me como me sentia bem! Na escola falava com todos, os mais In, os mais Nerd, não queria saber se os outros não gostavam disso, eu dava-me com quem queria e ninguém tinha nada a ver! Aprendi a respeitar cada pessoa como ela era e apreciar a individualidade de cada um.Foi muito interessante, porque com a minha maneira de estar, acabei por juntar pessoas que não sonhavam estar um dia juntas!
    Muito obrigada pela partilha e por nos levares a viajar no tempo ;)

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  19. UAH! Que texto... Arrepiante diria. E que me deixou sem palavras! Muitos parabéns Ana Luísa <3

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  20. este teu texto e' uma inspiracao ana luisa! obrigada pela coragem!
    muita força e que sejas sempre como e's! beijinhos

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